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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Baratas

Toda a sopa tem
pelo menos uma barata.

Há tres tipos de baratas:
as afogadas,
as vivas
e as inexistentes.

As primeiras encontram-se
comendo a sopa; e sabem a podre
do tempo que estiveram mortas.

As segundas só se encontram
depois de se esgotarem as primeiras;
estão à mão, mas não lhas deitamos.
Costumam saber a barata.

As terceiras, como não existem,
têm de se inventar;
uma vez inventadas,
sabem a ar, de não existirem.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O que conta na escada da vida

Subir a escada da vida
é algo que todos nós fazemos
mas será que fazemos bem?

Quando tentamos subir
será que olhamos para nós
para vermos se somos dignos de atingir o topo?

E quantos de nós olham para os outros
e dizem que eles jamais chegarão ao topo
porque lá atrás no tempo deram uns tropeções.

Como é deprimente que todos esses são demasiado ignorantes
para saber que estão errados...

É que para sermos dignos de chegar ao topo
não conta onde fomos nem onde estamos
mas sim para onde queremos ir.

terça-feira, 22 de julho de 2008

A tempestade que cega

Hoje tento ver pela janela
mas lá fora só há chuva e trovoada
por isso não consigo ver nada
e aqui dentro é a mesma coisa

Aqui no meu quarto grassa a intempérie
e é essa intempérie que me obstrui a visão
com ela pela frente nem as minhas mãos posso ver
quanto mais as mãos dos que estão lá fora

Preciso de uma arma que cale a tempestade
uma bomba, um machado, um tridente, qualquer coisa
porque enquanto as nuvens daqui não forem embora
não poderei ver o sol que brilha lá fora

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Perdido no meio da névoa branca

Estou perdido no meio da névoa branca

sem bússola para saber o caminho

nem mapa para me dizer onde fui parar.


Desde que veio a névoa fiquei aqui

não andei em nenhuma direcção

pois não sei o que há a minha volta

e não quero cair duma ribanceira abaixo.

(nunca se sabe se existem aqui)


Aqui não se vêem árvores,

nem pássaros,

nem o Sol,

nem a Lua,

nem os planetas,

nem as estrelas,

nem sequer o chão;

não se avista pessoas,

nem seja o que for que mexa.


Estou perdido neste sítio

e não há Deus que me salve

e não há destino em que possa confiar

e não há uma luz que fure o nevoeiro.


Estou perdido no meio da névoa branca

sem bússola para saber o caminho

mas na situação em que estou

duvido que sequer haja um caminho.


Resta-me esperar...


Estou perdido no meio da névoa branca

sem bússola para saber o caminho

à espera de alguém que me encontre

e me mostre o caminho.

(isto supondo que esse alguém existe...)


Suponhamos então...


Estou perdido no meio da névoa branca

sem bússola para saber o caminho

nem mapa para me dizer onde fui parar

mas ficava satisfeito se me trouxessem

uma manta para não apanhar frio

e um tapete voador para sair daqui.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

#254

Era uma vez
um grupo de senhores
que há muitos, muitos anos
se reuniu num belo palácio
e, julgando-se os maiores bruxos do mundo,
proclamaram ter o poder de alterar a língua.

E então, muitos anos depois,
os pretensos bruxos resolveram levar a cabo
o seu louco plano.
Assim, o rei de Portugal
reuniu com a alta nobreza
e do desejo dos senhores se fez lei.

Desde essa altura,
o correcto passou a ser incorrecto;
a leccionação enfraqueceu;
a verdade tornou-se vestimenta;
entre ir e parar não há diferença.
A mini-saia perdeu a costura,
a auto-estrada perdeu os traços,
horário passou a ser lugar de reza.

E a bela língua que outrora reinara
foi transformada num sapo.
Agora, ela aguarda que chegue o príncipe encantado
que a beijará
e lhe permitirá
derrubar o tirano que ocupou o trono
e reinar como legítima rainha.

sábado, 22 de março de 2008

Poema à Morte

Tu, perversa assassina,
Feroz e impávido animal,
Besta-mor ao serviço do mal,
Demónio da má sina,

Tem vergonha, grande parva,
Tem vergonha nessa cara!
Faz dieta, sua alarve,
Pára de comer comida cara!
É que, sabes, já engordaste
Demais para o meu gosto
A comer o que não devias!

Quero que sejas demitida do teu posto,
Que se dissolva a instituição que fundaste,
Que pagues caro o que fizeste,
Que vás para a cova
E de lá nunca mais voltes!

Eu mando, ordeno, requeiro e demando
Que vás dar uma volta ao infinito,
Que nunca mais voltes a este mundo!
Se me desobedeceres,
Sentirás a minha ira destruir-te
A ti e ao teu maldito poder!

Acabou tudo, miúda tolinha!
(Como se alguma vez tivesse começado!)
Nem os rapazes gostarão de ti,
A não ser que cortes com o passado!

Por isso, ouve bem o que te digo...

Com a sétima te acuso,
Com a quintilha te escorraço,
Com a sextilha te ameaço;
Com uma quadra te insulto,
E com a outra te aconselho.
E com esta oitava eu te dou
Um conselho final:
Porta-te bem, rapariga!

domingo, 4 de novembro de 2007

Porque será que os políticos não servem para nada?

Malditos sejam os políticos
E as suas malditas leis!
Estou farto de que eles se armem em reis
E de que não dêem ouvidos aos críticos!

Quero fazer as minhas próprias regras
E fazer orelhas moucas aos deputados!
Ministros, mantenham-se afastados
Ou ainda vos faço umas grandes negras!

E, já agora,
Se estou aqui a dizer-me rebelde
Por que estou eu a respeitar as regras da rima?
E por que motivo está esta estrofe fora do sítio?

Toca a deitar abaixo o Governo!
Vamos lá acabar com as tiranias
E levar o país para a frente!
Já chega de promessas incumpridas!

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Uma rima sem nexo?

Ora por aquilo que eu li
Do que eu próprio já escrevi
Parece-me que este poema é
Como os do meu velho estilo
Que rimam sempre com Nilo,
E que acabam sempre em camomila
Que vai sempre parar ao armazém da vila
E da qual depois se faz chá
Para se vender no café
Onde clientela sempre há.

Ah! Pois é!
As palavras andam a pé
Para irem ter com os seus namorados,
Os lindíssimos pontos
Que não se fazem rogados
E dançam tanto, tanto, tanto,
Que até ficam tontos!

E, como parece que já falei de temas a mais,
E já rimei palavras que chegue
Fazendo versos sem quase nenhum nexo
Que fazem um poema e esta estrofe em anexo.
Por fim, ordeno que ninguém negue
Que poesia nunca é demais.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Funeral de um bom horário

Era uma vez um bom horário
Que morreu hoje às dez para as cinco.

É uma pena ter morrido tão jovem:
Duas semanas foi o tempo que viveu.

Foi assassinado pelos seus próprios pais,
Deixando um rasto de sange no seu lugar
Que chega até às seis e meia da tarde.
Mas os pais não ficaram desolados:
Já deram à luz um novo horário.

E, assim, hoje choramos a morte do nosso querido horário
Que nos guiou pelas aulas e pelos intervalos,
Pelas manhãs e pelas tardes,
Que nos disse quando acordar e almoçar.
Não o enterraremos;Ficará num lugar de rei
No topo da minha secretária.

E, quanto ao novo horário,
É melhor não sofrermos por antecipação,
Embora haja uma grande probabilidade
De lhe acontecer o mesmo que ao irmão...